ARTE: ARQUITETA CAROLINA LIMA

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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA


ONDE CANTA O SABIÁ

Edinho nasceu e criou-se à beira do Velho Chico, em suas águas banhou a infância e a adolescência. Quase adulto transferiu-se para Maceió, estudou Direito. Tornou-se um bom advogado, seu escritório tem excelente clientela. Com ajutório de uma bela sinecura na Assembléia Legislativa vive tranquilamente nessa terra das Alagoas. Logo após sua formatura, venceu uma apertada eleição para prefeito de seu município, fez razoável trabalho nos quatro anos, o credenciou a ser candidato a deputado estadual. Ganhou, foi medíocre parlamentar, não conseguiu ser eleito nas tentativas seguintes. Mulherengo incorrigível é o maior cliente de uma cafetina de nome Joana, moradora para as bandas do bairro do Prado. Por conta desse irresistível impulso às mulheres, passou alguns constrangimentos com a esposa, que ele adora, mãe de seus cinco filhos. Edinho é excelente pai, esposo dedicado. Se não fosse por esse pequeno defeito, seria o melhor marido do mundo.
Certo dia, depois que os filhos foram para o colégio, sua mulher saiu para o trabalho na Câmara de Vereadores, Edinho se viu só, do quarto telefonou para a rapariga, estava empolgado por uma pernambucana, hospedada num hotel por sua conta. Quando a menina atendeu, depois do alô, ele começou a cantar: “Ai que saudade de tu meu desejo... Ai que saudade dos lábios de mel... e nos seus braços carinhosos, estou nos braços da paz...”. Aconteceu o improvável, a madame lembrou-se que deveria marcar consulta no dentista, havia perdido o celular, retornou e entrou em casa, Edinho no quarto não percebeu. Quando ela puxou o telefone da sala, ouviu a cantoria do marido na extensão. Esperou ele acabar de cantar, não esperou que se falassem, veio o desabafo: “Rapariga sem-vergonha, deixe o meu marido sossegado, quenga safada”. Saiu batendo a porta, Edinho ficou aperreado, ser apanhado em flagrante deixa qualquer um nocauteado. Precisou algum tempo para voltar a paz entre o casal.
O restaurante preferido de Edinho é o “Onde Canta o Sabiá”, local discreto, um enorme sítio no Tabuleiro, bela chácara cheia de árvores frondosas, quintal gostoso, fresco e ventilado. Mesas e cadeiras envernizadas dão o toque aconchegante ao ambiente. Diz Edinho ser um excelente local para se “esconder”, além da comida divina, galinha ao molho pardo, carneiro assado, pirãozada de goiamum, camarãozada e o pitu gordo do rio Mundaú, excelente cardápio, se come bem naquele local encantador.
Certo dia, Joana, a cafetina, telefonou para Edinho, havia chegado carne nova. Ele ficou extasiado quando conheceu Mara, morena bonita do sertão alagoano, lábios carnudos, cabelos pretos escorridos, olhos castanhos davam um toque de meiguice e inocência. Edinho ficou louco pela menina, passou uma época enrabichado por Mara. Toda sexta-feira, ao meio dia, ele saía do escritório de advocacia no Edifício Brêda, apanhava Mara, partia para o “Onde Canta o Sabiá”. Depois de um almoço dos deuses, cerveja e uísque, o motel, uma tarde de amor com Mara, ”La belle de jour”, como a chamava. Mas o mundo é mau, a inveja é um sentimento mesquinho. Numa dessas sextas-feiras, quando Edinho e Mara pareciam o casal mais apaixonado do “Onde Canta o Sabiá”, algum anônimo telefonou para sua digníssima esposa detalhando onde estava o marido com a rapariga. A sorte foi Edinho estar sentado numa mesa de frente para a entrada da chácara. Assustou-se de repente quando viu sua mulher entrar dirigindo um gol verde, reconheceu o carro. Em outra mesa ao lado, conversavam Ricardo e Fernando, bons boêmios. Rapidamente Edinho foi à mesa vizinha, pediu a Ricardo para abraçar sua namorada como se fosse dele, era uma emergência, explicou a situação vexatória, a mulher havia chegado. Trocou de mesa. Ricardo, bom samaritano, enfiou a boca nos tentadores lábios de Mara.
A esposa nervosa entrou no restaurante, viu Edinho na mesa conversando com Fernando. Ele se fez de surpreso, foi ao seu encontro. Passaram meia hora conversando. Voltou sorrindo, satisfeito, tudo explicado, sua mulher pediu desculpas. Nesse momento percebeu, Ricardo e Mara ainda se abraçavam e se beijavam. Edinho virou uma fera, o ciúme invadiu sua alma: “Está bom, podem parar, o perigo já passou... Hei, hei, não precisa virar os olhos, ouviu menina?” Separou o casal, apanhou-a pelo braço, pagou a conta, deu um até logo para todos, foi feliz amar sua “belle de jour” naquela tarde úmida e fresca de abril.

4 comentários:

Alcione disse...

Carlito,

adoro suas crônicas. Você tem uma maneira singular de descrever lugares e pessoas da nossa terrinha. Sinto um aconchego grande ao ler essas crônicas.

Carlito Lima disse...

OBRIGADO ALCIONE, GOSTARIA DE LHE PRESENTEAR UM LIVRO. ENVIE SEU ENDEREÇO PELA EMAIL: carlitoplima@gmail.com
SE VC QUISER O LIVRO

Simone disse...

Cantar ao telefone: “Ai que saudade de tu meu desejo... Ai que saudade dos lábios de mel... e nos seus braços carinhosos, estou nos braços da paz...”. para uma mulher e ser pego pela esposa kkkk só você mesmo Carlito para nos presentear com uma crônica assim. Obrigada por alegrar meus dias com suas palavras neste blog.
Bjos

Anônimo disse...

Irmãozinho, o Restaurante , assim como todo sítio, foram vendidos para a Prefeitura e hoje abrigam a feirinha do tabuleiro. Também me escondi por lá algumas vezes...

Um abração amigo !!

Paulo Noronha