ARTE: ARQUITETA CAROLINA LIMA

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domingo, 22 de novembro de 2009

DEU NO BLOG DO NOBLAT - ARTIGO DO JORNALISTA BAIANO VITOR HUGO SOARES


Futucando a memória
Ligo o rádio na manhã de domingo, dia que sempre pediu cachimbo. Ultimamente esta idéia tornou-se subversiva e perigosa para além dos riscos à saúde. São dias de implacável perseguição administrativa, econômica e policial aos fumantes.
Não há trégua nem territórios inteiramente livres para uma tragada sem protestos e discursos "politicamente corretos", embora os cariocas sigam resistindo aos radicalismos das proibições - por bravura para uns, ou pura insanidade para outros.
Em São Paulo do governador e ex-ministro da Saúde José Serra, anti-tabagista inflexível da primeira hora, ou em Salvador do evangélico prefeito João Henrique Carneiro, dá no mesmo, ou quase - porque na capital baiana a cultura do larga-isso-pra-lá segue imbatível e sempre é possível um jeitinho.
"Até em Paris!", reclama uma querida amiga baiana, fumante e combatente, assustada com os rigores das proibições em um dos templos mundiais do respeito às liberdades individuais e do livre arbítrio.
"Para mim a França perdeu o encanto, não volto mais lá", reclama a amiga enquanto levanta irritada da mesa do bar da Pituba, para pitar na rua, sob um sol de mais de 30 graus.
Se estivesse no apartamento, com o chato do filho do vizinho de cima reclamando da fumaça, colocaria para tocar a pleno volume o manifesto musical anarquista de Caetano Veloso, "É Proibido Proibir".
Mesmo sem nunca ter fumado um cigarro na vida - nem no colégio, nem na universidade, nem nas redações de jornais e revista por onde passei - esta nova querela do Brasil mexe comigo.
Até a atenção voar para a conversa surpreendente que vem do rádio ligado, de onde não esperava muita coisa no domingo de solitárias meditações caseiras.
Ficaria contente com uma música de Aznavour, ou com uma notícia amena que me afastasse um pouco do surrealismo das falas e debates sobre o apagão; dos longos e previsíveis arrazoados jurídicos e (principalmente) políticos do ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, sobre o refugiado italiano; da cara manhosa e suspeita de Sarney no Senado; dos labirintos afetivos de FHC; da lengalenga em torno do filme "Lula, o filho do Brasil".
Bom mesmo seria ouvir algo que lembrasse Londres, Lisboa, Madri, Praga, Olinda. Ou mesmo Maceió da farinha boa de Djavan e das deliciosas crônicas do escritor Carlito Lima, o velho Capita, Duque de Jaraguá .
Ele acaba de lançar seu mais novo livro, "As Mariposas Também Amam", e recebeu esta semana na Assembleia Legislativa de Alagoas a comenda Ledo Ivo, com a presença do próprio poeta e escritor, imortal da Academia Brasileira de Letras, que empresta seu nome à honraria destinada aos homens e mulheres de letras, cultura e valor das Alagoas.
Surpresa! Do aparelho sintonizado na Radio Metrópole FM-Salvador, chegam as vozes do diálogo entre o apresentador Mario Kertész , que conversa por telefone da Bahia com a escritora Lygia Fagundes Teles, em São Paulo, ela também, como Ledo Ivo, imortal da ABL.
É uma reprise do programa “Na Linha”, que Mario apresenta. Dá gosto ver o jogo do hábil entrevistador no diálogo inteligente com sua tímida, mas sábia entrevistada.
O radialista sabe que encontrou um veio de diamante, mas tem a plena noção de que precisa garimpar com cuidado e delicadeza para não haver rupturas, desabamentos que podem pôr toda mineração a perder..
"Escrever é futucar a memória", diz a autora de "As Meninas" para explicar suas reticências ao falar.
Principalmente quando a conversa se aproxima de revelações mais dolorosas sobre a vida e os despenhadeiros da alma, que ela como poucos retrata em seus livros.
Mário dá um empurrãozinho discreto e respeitoso. O suficiente para Lygia seguir "futucando as lembranças".
Ela fala da morte prematura do primeiro marido e destacado jurista Gofredo Telles, e mais prematura e dolorosa ainda morte do filho, Gofredo da Silva Telles Neto, o brilhante e promissor documentarista paulista.
O jovem com profundas ligações com a Bahia, que amava Salvador com a devoção dos iniciados no axé, nos terreiros de candomblé, da gente que vive no casario do bairro de Santo Antonio, do Além do Carmo e do Pelourinho.
Espaços que o filho resgatou "em um dos mais bonitos e comoventes filmes que realizou antes de partir", recorda a mãe comovida.
A escritora lembra também do segundo marido, o saudoso Paulo Emílio Salles Gomes, professor da USP, estudioso e mestre insuperável das coisas ligadas à história e à cultura do cinema brasileiro.
Pioneiro das Jornadas de Cinema da Bahia nos anos 60/70, evento hoje internacional, criado e mantido sempre por Guido Araújo.
Perdas e danos que fizeram a autora de "Ciranda de Pedras" e "Antes do Baile" ficar "sozinha, reclusa, solitária". Lygia conta que foi salva das profundezas da depressão pelos livros e personagens de sua obra com os quais segue convivendo, "inclusive o gato", um de seus personagens recorrentes.
Salva também, confessa, pela entrada na ABL, onde se sente à vontade na hora do chá e das conversas com os seus iguais.
Ligia confessa no ar, ao final da conversa com Mário, que só fica preocupada quando eventualmente dá um espirro na Academia e sempre aparece alguém cheio de expectativas com a pergunta:
“É pneumonia?”
Se fumasse teria enfrentado a turma politicamente correta e pedido um legítimo charuto cubano para completar o prazer do domingo em casa.
O que se pode pedir mais depois de saborear uma entrevista tão densa e tão rica, mesmo em reprise, com Lygia Fagundes Teles?

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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