ARTE: ARQUITETA CAROLINA LIMA

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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

FLIMAR - OVÍDIO POLI JÚNIOR - escritor - Paraty - Rio


Marechal Deodoro celebra a arte da palavra

Acabo de voltar da Festa Literária de Marechal Deodoro, que aconteceu na cidade histórica que foi a primeira capital da antiga província de Alagoas. A bandeira da cidade tem como símbolos uma espada e uma pena, relembrando a influência de militares e intelectuais em seu destino. A FLIMAR investe na segunda vertente, mas fala com orgulho da primeira (nada a estranhar: ali perto o bispo Sardinha foi devorado, ali perto viveu Calabar e mais ao norte nasceu o Quilombo dos Palmares).
A FLIMAR contou com dezenas de palestras e mesas de debate, sobre os temas mais diversos: literatura, história, estímulo à leitura, turismo cultural. Os debates aconteceram no centro histórico da cidade e em escolas e praças do município, envolvendo oficinas, encontros entre escritores e estudantes e apresentações artísticas. Tudo isso em meio a um cenário exuberante: as imensas lagunas, as ruas estreitas, o casario colonial, as igrejas barrocas e os pontos históricos que não podem deixar de ser visitados, como a casa em que nasceu o marechal Deodoro da Fonseca.
Na casa de Deodoro, ficamos sabendo que o filho ilustre teve sete irmãos (todos militares, três deles mortos na Guerra do Paraguai). A casa era governada por uma matriarca de nome Dona Rosa, descendente de índios e escravos, de quem se conta que dava vivas à rua quando sabia da morte dos filhos em batalha, para depois chorar em reclusão. Vida espartana, conforme explicou o guia turístico: quando visitas indesejadas chegavam, os pratos e talheres eram guardados às pressas nos quatro gavetões da mesa e sobre ela ficava apenas um pedaço de pão seco.
Organizada pelo escritor Carlito Lima, idealizador do evento e secretário de cultura do município, a FLIMAR conseguiu reunir em cinco dias coisas difíceis de encontrar ao mesmo tempo em outras latitudes: ousadia, criatividade, solidariedade e alegria. Ousadia por fazer uma festa dessa envergadura, mesmo com poucos recursos. Criatividade por apostar na difusão da cultura nordestina e na forte presença de escritores travando contato com estudantes nas escolas. A solidariedade está presente na vontade de compartilhar experiências com os visitantes, bem como no desejo de preservar e restaurar o belíssimo conjunto arquitetônico da cidade e na campanha de doação de livros para reconstruir as bibliotecas destruídas pelas enchentes que atingiram o interior do Estado.
Aqui em Paraty há uma espécie de “fuso horário” de meia hora do qual não se pode fugir, pois a cidade não tem pressa em existir. Em Marechal Deodoro, o fuso horário é maior e sempre se tem mais uma hora para que as coisas aconteçam: a cidade, e também as pessoas, não têm pressa. Na quarta-feira estava prevista a exibição em praça pública do filme “O Bem Amado” (rodado na cidade com muitos atores e figurantes locais), mas uma forte ventania quase impediu a projeção, que começou tarde da noite e avançou pela madrugada.
Não ocorreu no domingo a esperada cavalhada (espécie de duelo de origem medieval) no bairro de Taperaguá. Mas em momento algum a festa perdeu seu encanto: os corais, as bandas filarmônicas tradicionais, seu Nelson da rabeca e seu Zezinho do saxofone deram mostras de imensa vitalidade. No sábado à noite, as ruas estreitas de Marechal receberam os Seresteiros da Pitanguinha, grupo musical de Maceió. Marechal Deodoro transformou-se em sítio de cultura, com apresentações musicais nas praças e igrejas da cidade. Em uma feira ao ar livre, outros municípios puderam mostrar em pequenos estandes sua cultura e sua arte, sendo muito forte a presença do artesanato local e dos cantadores de cordel.
Os festivais literários que se espalham pelo Brasil mostram que quando a literatura toma as ruas amplia-se o campo do possível. A FLIMAR dá um passo ousado ao criar mais um espaço para que a literatura deixe de ser algo sagrado e distante e volte a ser o que foi nas suas origens: uma forma de comunicação entre os homens. Nunca é demais lembrar que a literatura é criação humana e, como qualquer outra arte, pode morrer se não lhe dermos a devida importância. Em Marechal Deodoro, onde antes desembarcavam navios para contrabandear o pau-brasil, a FLIMAR congrega escritores, estudantes e professores na mais alegre festa literária de que participei.
Cabe destacar a brilhante apresentação de Ignácio de Loyola Brandão (buscando na memória a teia de recordações que o levaram à arte de escrever), bem como de Marina Colasanti (que fez uma fantástica releitura das suas leituras) e de Antônio Torres (que em longa oficina caminhou com elegância pelos meandros e becos da crônica). E, também, a oportunidade de conhecer a obra de Arriete Vilela. Sem falar das exposições de Homero Fonseca, Golbery Lessa, Adriana Ruiz, Maurício Melo Júnior, Ricardo Oiticica, Zelito Nunes e das intervenções poéticas de José Inácio Vieira de Melo e de Chico de Assis, este último trazendo para o palco em atuação vigorosa poemas de Vinícius de Moraes e Jorge de Lima.
O leitor não tenha dúvida: Aurélio Buarque de Holanda, Graciliano Ramos e Jorge de Lima ficariam de olhos marejados com a festa literária de Marechal Deodoro. Quem sabe na próxima FLIMAR seja possível ir até Palmeira dos Índios, que fica a cerca de 90 quilômetros da cidade, na região do agreste. Será que a festa literária chegará às portas do sertão?
O legado da FLIMAR não pode ser resumido num texto breve como este. Vai muito além das lagunas que rodeiam a cidade e do casario secular que dorme e acorda cedo seguindo o ritmo dos canaviais. Marechal é uma cidade que renasce após longo período de hibernação e esquecimento. Muitos que antes a conheciam somente pelos lados da Praia do Francês começam a percorrer suas ruelas e praças. Esse feito é da FLIMAR: trazer estudantes, professores, escritores e turistas para dentro do conjunto arquitetônico colonial celebrando a arte da palavra e outras formas de expressão artística. Volta-se de lá percebendo que o Brasil está redescobrindo as suas origens.

Ovídio Poli Junior é escritor e mora em Paraty (RJ). Publicou a narrativa satírica O caso do cavalo probo e o livro de contos Sobre homens & bestas. Concluiu doutorado em literatura brasileira na USP e coordena oficinas de criação literária. Organiza a programação literária da OFF FLIP, é curador do Prêmio OFF FLIP de Literatura e editor do Selo OFF FLIP.

Um comentário:

Jair Porto disse...

Para mim que assisti de perto a tudo isso, ficam os meus parabéns ao escritor pela fidelidade aos acontecimentos poeticamente destacados nesse texto, além do meu particular agradecimento por ter prestigiado nosso evento.